Nutrologia • Saúde metabólica • Evidência científica
Pro Go: o que a ciência mostra — e ainda não mostra — sobre o suplemento de peptídeo de salmão
Existe uma linha de pesquisa real sobre peptídeos de salmão e receptores de incretinas, mas isso ainda é diferente de ter evidência clínica robusta em seres humanos.
Com a popularização dos medicamentos à base de GLP-1 para o tratamento da obesidade, cresceu também o interesse por suplementos que prometem efeitos parecidos. O Pro Go é um dos nomes que aparecem nessa conversa.
É natural ficar curioso: existe ciência real por trás do produto ou ele apenas surfa na onda dos “remédios da moda”? A resposta precisa ficar entre o exagero do marketing e a rejeição automática. O mais importante é separar o que já foi demonstrado do que ainda está em estudo.
O que é o Pro Go?
O Pro Go é um suplemento manipulado, vendido por farmácias de manipulação, produzido a partir de um hidrolisado proteico derivado do salmão. Trata-se de uma proteína quebrada em fragmentos menores, chamados peptídeos, por meio de processos enzimáticos.
O produto costuma ser divulgado como tendo uma “tripla ação metabólica”, relacionada aos hormônios GLP-1, GIP e GLP-2, que participam de processos ligados à saciedade, ao metabolismo energético e ao funcionamento intestinal.
O que são GLP-1, GIP e GLP-2?
Os três hormônios fazem parte do grupo das incretinas e são produzidos pelo intestino em resposta à alimentação:
- GLP-1: estimula a liberação de insulina de forma dependente da glicose, reduz a liberação de glucagon, retarda o esvaziamento do estômago e atua no cérebro em mecanismos relacionados ao apetite. É alvo de medicamentos como semaglutida e liraglutida.
- GIP: também estimula a liberação de insulina após as refeições. É um dos alvos da tirzepatida, medicamento que age simultaneamente sobre GIP e GLP-1.
- GLP-2: tem papel mais relacionado ao crescimento da mucosa intestinal e à absorção de nutrientes do que ao controle da fome. A teduglutida, por exemplo, é um medicamento específico usado na síndrome do intestino curto, e não para emagrecimento.
Existe ciência por trás do Pro Go?
Existe uma linha de pesquisa, mas ela tem limitações importantes. Um estudo publicado em 2024 testou, em laboratório e não em pessoas, um hidrolisado proteico de salmão semelhante ao usado nesse tipo de suplemento.
O estudo encontrou ativação de receptores de GLP-1 e GIP em células de laboratório, de forma proporcional à dose testada. A menor fração do peptídeo apresentou atividade comparável à da semaglutida naquele ambiente controlado.
O que ainda precisa ser considerado?
- O estudo não foi feito em pessoas: ativar receptores em células isoladas não comprova eficácia clínica para emagrecimento.
- Conflitos de interesse precisam ser transparentes: vínculos dos autores com a empresa que fornece a matéria-prima não anulam os achados, mas devem ser considerados na interpretação.
- A via oral é um desafio: peptídeos costumam ser degradados pelo sistema digestivo antes de serem absorvidos de maneira significativa. Medicamentos orais aprovados podem precisar de tecnologias farmacêuticas específicas para alcançar absorção clinicamente relevante.
O Pro Go é a mesma coisa que os medicamentos à base de GLP-1?
Não. Medicamentos como a semaglutida passaram por grandes ensaios clínicos randomizados, com milhares de participantes, demonstrando eficácia e perfil de segurança dentro de doses, indicações e monitoramento padronizados.
Produtos manipulados como o Pro Go seguem uma lógica regulatória diferente. As boas práticas de manipulação estabelecem requisitos para a qualidade e a segurança do processo de fabricação, mas não exigem o mesmo tipo de estudo clínico de eficácia em larga escala necessário para registrar um novo medicamento.
Isso não prova que o produto “não funciona”. Significa que, até o momento, não existe o mesmo nível de evidência de que ele produza, em pessoas, um efeito clínico comparável ao de um medicamento aprovado.
Isso significa que o Pro Go não serve para nada?
Não necessariamente. Hidrolisados proteicos podem ter valor nutricional e contribuir para a saciedade simplesmente por serem uma fonte de proteína.
A pesquisa sobre peptídeos de salmão e receptores de incretinas é promissora e merece ser acompanhada. Mas isso é diferente de dizer que o produto substitui ou equivale a um tratamento farmacológico validado — afirmação que a ciência atual ainda não sustenta.
Pontos de atenção antes de usar
- Alergia a peixe: por ser derivado do salmão, o produto pode ser inadequado para pessoas com alergia a peixes ou hipersensibilidade a algum componente da fórmula.
- Não substitui avaliação médica: suplementos não devem ser usados como atalho para evitar uma investigação completa da saúde metabólica.
- Informe sempre ao médico: qualquer suplemento em uso deve ser conhecido pelo profissional que acompanha o tratamento, para avaliar interações e pertinência.
- Desconfie de promessas fechadas: nenhum suplemento deve ser vendido com garantia de resultado.
Conclusão
O Pro Go se apoia em uma linha de pesquisa real e em desenvolvimento sobre peptídeos de salmão e receptores de incretinas. Isso, porém, ainda é diferente de ter evidência clínica robusta em humanos de que o suplemento produza os mesmos efeitos dos medicamentos à base de GLP-1.
Não é preciso descartar o produto por princípio, nem tratá-lo como equivalente a um tratamento validado. O caminho mais seguro é entender o que a ciência já mostra, o que ainda está em estudo e, com orientação médica, decidir se ele faz sentido dentro da sua estratégia de cuidado.
Antes de iniciar um suplemento, entenda se ele faz sentido para você.
Se você tem interesse no Pro Go ou em qualquer outro suplemento, converse com um médico antes de iniciar o uso.
Uma avaliação individualizada ajuda a analisar sua história, seus exames e quais estratégias têm respaldo científico suficiente para fazer parte do seu tratamento.
Agende sua avaliaçãoDr. Vinicius Grachinski — Nutrologia. Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Converse com seu médico antes de iniciar suplementos, medicamentos ou mudanças significativas no tratamento.
Referências
- Currie C, Bjerknes C, Framroze B. Initial Exploration of the In Vitro Activation of GLP-1 and GIP Receptors and Pancreatic Islet Cell Protection by Salmon-Derived Bioactive Peptides. Marine Drugs, 2024.
- Drucker DJ. Mechanisms of Action and Therapeutic Application of Glucagon-like Peptide-1. Cell Metabolism, 2018.
- Wilding JPH, Batterham RL, Calanna S, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicine, 2021.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC nº 67/2007 — Boas Práticas de Manipulação de Preparações Magistrais e Oficinais para Uso Humano em Farmácias.
